À frente da Procissão dos Orixás, pai de santo mantém uma relação de décadas com as religiões de matriz africana
Quando o vereador de São Luís Astro de Ogum (PCdoB), que também é pai de santo, conduziu mais uma vez a Procissão dos Orixás pelas ruas do centro da capital, nesta terça-feira (8), havia por trás daqueles caminhada uma história iniciada quando ele ainda tinha apenas 14 anos, muito antes de seu primeiro mandato, em 2000.
Filho de Oxumaré, com a cabeça emprestada para Ogum, o parlamentar comanda o terreiro Ogum com Iansã, no Barreto, e preside a Federação de Umbanda e Cultos Afro-Brasileiros do Maranhão (FUCABMA). Ao longo das décadas, passou a ocupar diferentes espaços na preservação dos ritos, na defesa da liberdade de culto e no enfrentamento do preconceito e da intolerância religiosa.
Na Procissão dos Orixás, essa presença corresponde a quase metade das mais de seis décadas de existência do evento. Realizado em reverência a São Luís Rei de França e em comemoração ao aniversário de fundação da capital maranhense, o cortejo se consolidou como uma das manifestações de fé que integram o calendário da cidade.
Nesta edição, andores, indumentárias e uma diversidade de cores ocuparam as ruas do centro histórico. A Corte do Divino também integrou o cortejo, ao lado de representantes de terreiros de diferentes localidades. Cânticos, ritmos e símbolos deram forma ao encontro de diferentes expressões religiosas em um mesmo espaço.
ATRAVESSANDO GERAÇÕES:
A relação entre a Umbanda, a Procissão dos Orixás e o Parlamento de São Luís, contudo, atravessa gerações. José Cupertino, um dos nomes responsáveis pela organização e expansão da Umbanda na capital, foi vereador e esteve à frente da Federação desde os primeiros anos da celebração.
Décadas depois, Astro passou a ocupar papel central na continuidade desse legado, mantendo uma manifestação historicamente conduzida por lideranças umbandistas.
A Câmara Municipal também recebeu outros representantes ligados à religião, entre eles Sebastião de Jesus Costa, o Sebastião do Coroado.
Astro de Ogum, entretanto, alcançou um espaço até então inédito ao se tornar o primeiro pai de santo a chegar à Presidência do Legislativo de uma capital brasileira. Em 2015, assumiu o comando da Casa, onde permaneceu até 2018.
O significado da conquista ultrapassou a representatividade de sua fé. Sua passagem pela Presidência se destacou pelo caráter administrativo da gestão, período em que o Legislativo ludovicense alcançou reconhecimento nacional e recebeu premiações pelo trabalho desenvolvido.
A experiência também ajudou a romper uma barreira histórica. Um pai de santo no posto mais alto do Parlamento municipal passou a ser reconhecido não apenas pela representatividade que carregava, como pela capacidade de gestão. Em uma sociedade ainda marcada pelo preconceito e intolerância, sua presença naquele espaço contribuiu para quebrar paradigmas e ampliar o respeito às religiões de matriz africana.
Hoje decano da Câmara Municipal e no exercício do sétimo mandato, o parlamentar manteve na vida pública a mesma identidade que carregava antes de ingressar no Legislativo. A política ampliou os espaços de defesa de uma causa que o acompanha desde a adolescência, sem afastá-lo dos terreiros, ritos e manifestações de fé.
“Minha relação com a nossa religião não começou na política e nunca dependeu de mandato. Quando cheguei à Câmara, eu já era pai de santo, conhecia as dificuldades enfrentadas pelos terreiros e sabia o quanto ainda precisávamos avançar no combate ao preconceito. A política ampliou esse espaço de defesa, contudo a caminhada veio muito antes. É uma história construída com fé, liberdade religiosa, respeito e paz”, finalizou.