”Sobre viver: precisamos falar sobre suicídio” — a urgência de romper o silêncio

Por Itamargarethe Corrêa Lima – Jornalista, radialista e advogada. Pós-graduada em Direito Tributário, Direito Penal e Processo Penal. Pós-graduanda em Direito Civil, Processo Civil e Docência do Ensino Superior.

O documentário “Sobre viver: precisamos falar sobre suicídio”, produzido pela Durango Filmes em parceria com alunos da Universidade Anhembi Morumbi em 2017, permanece extremamente atual. Quase uma década após seu lançamento, além de um lembrete contundente de que o silêncio nunca protegeu ninguém, a obra continua a cumprir uma função social e educativa essencial.

A escolha de publicar esta reflexão justamente hoje, segunda-feira de Carnaval (16), não é aleatória. Enquanto o país celebra, dança e ocupa as ruas em clima de festa, o debate sobre saúde mental e prevenção do suicídio não pode ser adiado.

Tragédias recentes demonstram que o sofrimento psíquico não respeita calendário festivo. Ao contrário, muitas vezes se agrava em meio ao contraste entre euforia coletiva e dores individuais silenciadas.

A realidade com que os casos são tratados é um dos pontos mais interessantes. Em vez de ocultar, a produção encara a questão com responsabilidade, buscando informar, conscientizar e humanizar uma discussão que ainda exige profundidade.

À época de seu lançamento, a obra já chamava atenção para a gravidade do problema. Os números mais recentes publicados pela Organização Mundial da Saúde reforçam essa dimensão.

Em 2021, mais de 727 mil pessoas morreram por suicídio em todo o mundo. Trata-se de uma causa de mortalidade que atravessa fronteiras, culturas e níveis de renda. Para cada morte, estima-se cerca de 20 tentativas.

A maior parte desses casos registrados, cerca de 73% dos óbitos, em países de baixa e média renda, o que revela uma combinação de vulnerabilidade social, falta de acesso a serviços de saúde mental e ausência de políticas públicas estruturadas.

Mais do que apresentar estatísticas, o documentário provoca reflexão. Ele evidencia que o silêncio, o preconceito e a falta de acolhimento tornam-se agentes indiretos da tragédia.

Depoimentos de especialistas e familiares mostram que o suicídio raramente resulta de uma decisão isolada. Na maioria das vezes, nasce de um acúmulo de frustrações, pressões e desamparo emocional, muitas vezes dentro do próprio ambiente familiar.

Relações autoritárias, distantes ou incapazes de desenvolver escuta e empatia criam contextos onde o sofrimento é invisibilizado e pedir ajuda se torna quase impossível. E é justamente essa reflexão que o Brasil foi forçado a confrontar recentemente com um episódio trágico no município de Itumbiara, no sul de Goiás.

Na madrugada de 11 de fevereiro de 2026, o Secretário de Governo de Itumbiara, Thales Naves Alves Machado, de 40 anos, atirou contra os seus dois filhos, Miguel Araújo Machado, de 12 anos, e Benício Araújo Machado, de 8 anos, e, em seguida, tirou a própria vida dentro da residência familiar, um fato que chocou não apenas a comunidade local, mas repercutiu nacionalmente.

Sara Tinoco Araújo Machado, mãe das crianças, esposa de Thales e filha do prefeito de Itumbiara, Dione Araújo (União Brasil), não se encontrava no local no momento do crime, conforme apurado pelas autoridades. O episódio foi classificado pelas autoridades policiais como homicídio seguido de suicídio, com investigações conduzidas pela Polícia Civil de Goiás.

Relatos preliminares mencionam um profundo abalo emocional e crise conjugal como possíveis fatores desencadeantes, ainda que as circunstâncias e motivações permaneçam sob apuração oficial. Sobre viver não transforma a dor em espetáculo nem suaviza a gravidade do tema.

Pelo contrário, reafirma o valor da vida ao mostrar que falar sobre suicídio é um ato de cuidado e responsabilidade coletiva. A prevenção não depende apenas de campanhas ocasionais, mas de uma mudança profunda na forma como a sociedade reconhece e acolhe o sofrimento emocional.

Precisamos ter a consciência que esse tema permanece sendo um dos mais graves e complexos problemas de saúde pública no mundo contemporâneo, figurando, infelizmente, entre as principais causas de morte entre jovens de 15 a 29 anos. No Brasil, o cenário também é preocupante.

Embora a entidade ainda não tenha divulgado números consolidados específicos para o ano de 2025, em razão do intervalo necessário para coleta, validação e harmonização dos registros nacionais, dados oficiais e estudos epidemiológicos amplamente utilizados indicam que cerca de 14 mil pessoas morrem por suicídio anualmente no país, o que equivale a aproximadamente 38 mortes por dia.

A taxa nacional gira em torno de 6 a 7 suicídios por 100 mil habitantes, com tendência de crescimento gradual ao longo da última década. Os dados brasileiros revelam, igualmente, forte impacto sobre populações jovens e economicamente ativas, além de marcadas desigualdades regionais e sociais.

A subnotificação, reconhecida por especialistas e pela própria OMS, indica que os números reais podem ser ainda mais elevados, reforçando a urgência de aprimorar os sistemas de vigilância, ampliar o acesso à atenção psicossocial e integrar ações preventivas de forma transversal nas políticas públicas.

Em síntese, tanto no plano global quanto no contexto brasileiro, os dados oficiais denotam que o suicídio não constitui um fenômeno isolado ou episódico, mas sim um problema estrutural de saúde pública, que demanda respostas institucionais permanentes, baseadas em evidências, promoção da saúde mental, combate ao estigma e fortalecimento das redes de cuidado.

Falar sobre suicídio salva vidas. E quando o diálogo parece difícil demais, a ajuda existe. No Brasil, o atendimento do Centro de Valorização da Vida, o CVV, está disponível pelo número 188, com escuta gratuita e sigilosa durante 24 horas por dia.

Por hoje ficamos por aqui. Até breve!

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