Folha de S. Paulo fala em disputa política em torno de assassinato no Maranhão

Uma investigação sobre o assassinato do empresário João Bosco Sobrinho, ocorrido em 2022, passou a ocupar posição central no cenário político do Maranhão e reúne, atualmente, os principais grupos políticos do estado, além do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino. As informações foram publicadas pelo jornalista José Marques, da Folha de S.Paulo.

Segundo José Marques, antes de o caso chegar ao STF, Gilbson Cutrim foi condenado pela Justiça do Maranhão a 13 anos de prisão como executor do crime. Em novembro de 2025, Flávio Dino assumiu a relatoria do inquérito no Supremo, que passou a investigar novos desdobramentos relacionados ao homicídio.

De acordo com a reportagem da Folha de S.Paulo, uma das linhas de investigação apura se o assassinato teria relação com uma suposta cobrança de propina envolvendo o presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MA), Daniel Brandão, sobrinho do governador Carlos Brandão (MDB). O caso também se tornou tema de embates entre grupos políticos ligados ao atual governador, antigos aliados de Flávio Dino e adversários das duas lideranças.

Ainda conforme José Marques, em maio deste ano Gilbson Cutrim obteve progressão para prisão domiciliar por decisão de Flávio Dino. No mesmo período, ele divulgou um vídeo no qual acusou o secretário extraordinário de Assuntos Legislativos, Raimundo Cutrim, de tentar convencer sua família a retirar o nome de Daniel Brandão dos depoimentos prestados às autoridades.

Na gravação, Gilbson afirmou: “[Propôs] valores exorbitantes. Uma parte desse material já está com a Polícia Federal. Essa outra a gente vai entregar no momento oportuno. A intenção disso aqui não é ter vantagem, é até uma forma de sobrevivência porque a gente é muito ameaçado.”

Segundo a Folha de S.Paulo, as declarações foram utilizadas politicamente pelo vice-governador Felipe Camarão (PT), pré-candidato ao Governo do Maranhão, enquanto aliados de Carlos Brandão passaram a questionar a imparcialidade de Flávio Dino para conduzir investigações envolvendo políticos maranhenses.

José Marques informa que interlocutores do ministro sustentam que Dino não se considera impedido ou suspeito para atuar no processo, por entender que não se enquadra nas hipóteses previstas em lei para afastamento da relatoria.

Na semana passada, conforme a reportagem, Flávio Dino determinou buscas e apreensões, o afastamento cautelar de Raimundo Cutrim do cargo e sua prisão domiciliar por suspeita de obstrução de Justiça. Durante a operação, a Polícia Federal apreendeu 26 armas em endereços ligados ao secretário. Um dos fundamentos da decisão foi um áudio no qual Raimundo Cutrim é investigado por supostamente tentar influenciar depoimentos da família de Gilbson.

Em nota enviada à Folha de S.Paulo, Carlos Brandão afirmou que os processos surgidos a partir de 2024 são resultado de “narrativas manipuladas” após seu rompimento político com um antigo grupo aliado. Daniel Brandão, por sua vez, negou qualquer ligação com o homicídio e afirmou que as acusações não são acompanhadas de provas, classificando-as como tentativas de desgastar sua imagem em período eleitoral.

Raimundo Cutrim também negou irregularidades e declarou à Folha de S.Paulo que recebeu “com absoluta serenidade alegações feitas por um homicida confesso, julgado e condenado pela Justiça”, acrescentando que as novas versões surgiram anos após a condenação do autor do crime.

A reportagem de José Marques informa ainda que a investigação sobre a suposta cobrança de propina teve início no Superior Tribunal de Justiça (STJ), sob relatoria do ministro Humberto Martins, mas foi remetida ao STF após a defesa de Gilbson Cutrim alegar que o senador Weverton Rocha (PDT) teria tentado interferir no caso.

Ao assumir o processo, Flávio Dino registrou que o inquérito investigava o possível envolvimento do parlamentar com uma organização criminosa e solicitou ao ministro André Mendonça o compartilhamento de provas obtidas pela Polícia Federal no âmbito da Operação Sem Desconto. Em resposta à Folha de S.Paulo, Weverton Rocha negou qualquer participação nos fatos e afirmou que seu nome estaria sendo incluído na investigação por interesses políticos.

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